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sexta-feira, fevereiro 22, 2019

No dia 20...

... O meu Anjo celebrou hoje mais um aniversário. O 5º aniversário... tem dias que parece que foi ontem que o tsunami se abateu sobre nós, tem dias que parece que já foi há uma eternidade...
 

Dizem que o que os olhos não veem o coração não sente. É mentira... o meu coração sente a todo o momento, o amor cresce a cada segundo e será assim até eu morrer e misturarem as minhas cinzas às dela, cinzas que eu guardo com muito amor. 

Hoje o Céu está em festa e o meu presente para a Júlia é ser feliz, aproveitar cada oportunidade para ajudar alguém, para ser simpática, ser empática e estar disponível para quem necessita de mim e eu possa fazer alguma diferença. Ela vive comigo no lugar mais precioso que eu tenho: o meu coração.


Meu Amor, hoje, lá no sítio onde os Anjos como tu moram, brinca muito e come uma nuvem, ouvi dizer que são doces
 

Nós cá em baixo iremos lembrar os 9 meses mais fantásticos e felizes que tivemos na nossa vida e agradecer a dádiva que foi poder ter partilhado a vida contigo. Não há palavra para a imensidão do Amor que sinto, hoje e sempre por ti e pelo teu irmão
 

Serás sempre a minha Jú, a minha princesa, aquela que em tão pouco tempo nos fez mudar tanto... e para melhor. 

A palavra amor é pequena demais para tanto sentimento...

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Hoje...

Hoje uma amiga de infância perdeu o seu filho... o seu único filho... 16 anos... Devia ser proibido os filhos partirem antes dos pais...

sábado, fevereiro 20, 2016

Carta Para Júlia da Tia Tainá

Hoje escrevo para ti, Jú. Não faço ideia se já sabes ler, mas suponho que o facto de estares aí em cima te dê privilégios que os outros meninos cá embaixo não tenham. De qualquer das formas, mesmo sem saber ler, sei que escutas com o coração, e, que ninguém nos ouça, é a melhor maneira de ouvir.
Às vezes teimo em pensar como foram os momentos antes da vossa partida... Se sofreram, é o que mais me assombra, quase todos os dias da minha vida.
Espero que simplesmente tenham se sentido cansadas e tenham adormecido, porque aquilo que estava a ser pedido de vocês, ou antes, aquilo que não vos estava a ser dado deve ter feito com que ficassem cansaditas e tenham decido descansar.
A tua mamã foi a primeira pessoa que persofinicou a perda da Nô. Muito antes de ter coragem de falar com ela, fui imensas vezes ao Facebook e ao blog por diversas razões... Para a ler, para tentar compreender, porque me identificava com cada palavra dita, e, acima de tudo, para ver fotos tuas. És tão linda pequenina
Imagino-te agora parecida com o teu mano, porque uma vez a tua mamã postou uma foto dele recém nascido e eu vos achei tão parecidos... Enfim. Eu ia ver as tuas fotos, pois como sabes, eu não vi a Nô (espero que ela me perdoe por isso)... E as tuas fotos exerciam um fascínio em mim. Estavas a dormir. Eras perfeitas, tinhas uns lábios tão bem desenhados... Não havia dor no teu rosto, somente paz. Em contrapartida, vi nos olhos e nas expressões dos teus papás o mesmo vazio que eu e o pai da Nô tínhamos... Foi nos roubado tudo. Não nos restava esperança, somente um vazio imenso.
O tempo tem passado, não sei se aí passa da mesma forma do que cá, mas parece que já passa uma eternidade desde que vocês partiram, e no entanto, só dois anos.
Todos os dias aprendemos a lidar com a vossa ausência, com a vossa saudade, com a ignorância de certas pessoas, com o pessimismo, com o medo insano de perder os vossos irmãos. Não é fácil viver assim. Não é fácil sentir saudade constante de algo. Não é fácil saber que não temos volta a dar. Não é fácil lutar todos os dias um bocadinho para que vocês não sejam esquecidas e sejam respeitadas como pessoas que são. Somos muito gratas por tudo que vocês nos deram e nos dão. Graças a ti, sei o quanto a tua mãe é melhor mãe para o Alex, tal como eu sou para o Kiko... Vocês nos ensinaram a aproveitar o momento, a sermos gratas por aquilo que temos, a não perder tanto tempo com coisas sem importância, acima de tudo, vocês nos ensinaram a amar. Amar sem ver. Amar sem tocar. Amar sem cheirar. Ensinaram-nos a amarmos os vossos irmãos, a absorver cada bocadinho deles, porque um dia vão ser demasiado crescidos para os nossos colos.
Sei que tens orgulho na tua mãe por tudo aquilo que ela tem feito, pelo sonho que realizou ao entrar para a Cruz Vermelha, pelo apoio que ela dá à mulheres como eu, e isso tudo, ela (e eu) só tem a agradecer a ti.
Pequenina, a tua vida na Terra foi curta, mas o teu legado vai durar para sempre... Porque eu tenho a certeza que no dia em que a tua mãe estiver finalmente pronta para estar contigo, o Alexandre jamais se vai esquecer a irmã especial que tem... E o teu nome, a tua vida, vai perdurar para sempre.
Gosto muito de ti Jú, espero que tu e a Nô sejam boas amigas.
Não fiquem tristes connosco quando choramos e nos apetece ir ter convosco... Nem sempre é fácil. Aliás, na maior parte do tempo é muito difícil, cansa durante muitos dias vestir uma capa de alegria, só para não "perturbar" ninguém com a nossa dor.
Espero que tenhas um dia "fabulástico" pequena Princesa.
Sê muito feliz, pois só conheceste o amor, nada de mal te tocou...

Beijinho,
Tia Tainá.

quinta-feira, agosto 27, 2015

Júlia...

Júlia,

Hoje é quinta-feira e cá em baixo está um dia cinzento... chuvoso... mesma luminosidade... não fosse a temperatura exterior estar uns 10ºC acima diria que o tempo está igual ao dia em que nasceste Anjo Rosa. Como me doem os dias assim... aqueles que saindo à rua ou olhando pela janela nos transportam ao pior dia das nossas vidas. Como é que ao fim de um ano e meio ainda dou por mim a perguntar-me porquê e onde errei contigo? e a pedir-te perdão por não te ter conseguido proteger...
As saudades teimam em rasgar-me a alma, amo-te tanto minha filha...

domingo, agosto 02, 2015

Neste mês...

Neste mês completas 1 ano e meio e é impressionante a quantidade de gaiatas da tua idade que se têm cruzado comigo. Todas lindas, super sorridentes e simpáticas. É assim também que te imagino... com o cabelo cheio de caracóis, tal qual o teu irmão tinha, com a mesma vida que o teu irmão tem...
Dizem que o ano 1 após a partida de quem amamos é o ano da maior saudade... não sei se é... mas que elas crescem dia a dia a par com o amor que te sinto é o que de mais verdadeiro trago em mim. Tenho saudades tuas Júlia, tenho mesmo muitas saudades tuas minha filha

sexta-feira, março 20, 2015

13...

Mais um mês... 13... 13 meses se completam em dia de eclipse solar, super lua e equinócio da primavera... Deus mostrando a sua grandeza.
Mais um mês a sorrir-te, amar-te e a ser feliz sofrendo... Mais um... passado contigo sempre presente em cada célula do meu corpo, em cada instante do pensamento, no sopro do vento, na gota da chuva, no raio do sol, na nuvem branca e na gaivota que voa... mais um mês contigo presente na beleza de todas as coisas que me circundam e envolvem. O vento é um abraço, os raios de sol são beijos diretamente vindos do Céu. E o Céu está em festa hoje minha princesa, meu Anjo Rosa, minha e para sempre minha filha Júlia... Perdurat amor in aeternum

sexta-feira, março 06, 2015

Amanhã...

Tenho andado estes dias a pensar no dia 7 de Março de 2014 e não consigo lembrar nada.
Um apagão daqueles...

Em vésperas de fazer mais um aniversário penso neste ciclo anual que passou por mim... estranhamente dias como o 7 de Março popularam o ano de 2014.

Celebrar um aniversário, seja meu ou de alguém querido tem sido tão doloroso e tenho feito das tripas coração para disfarçar o mais possível o meu desconforto. Não consigo evitar recordar que a minha filha nunca estará aqui connosco para celebrar o dela e lançar balões cantando os parabéns à beira-mar não era o que eu almejava para a nossa vida.

O dia de amanhã deixou de ser um dia festivo há 380 dias. O dia de amanhã passou a ser apenas o dia em que somo mais uma unidade ao número de anos que já vivi... e que acontece 15 dias depois do aniversário da morte da minha filha.

Sou feliz como alguém escalar o Evereste com pouca roupa e sem equipamento, o que quer dizer que sou feliz em sofrimento. Um contracenso não é? Mas de facto é assim mesmo, esta dor que trago em mim há 380 dias é a mesma dor que me ajuda a ser feliz, que mantém viva a minha filha dentro de mim.

Eu estou bem! Porque não estaria? Um amputado em princípio não morre porque lhe cortam um membro... sobrevive e aprende a viver todos os dias sem ele tal como eu... estou bem mas não estou bem como estava há 381 dias atrás, sou feliz mas não como era até há 381 dias atrás. Esta minha felicidade é a felicidade da minha nova vida como mãe orfã de filha e é uma felicidade sofrida... todos os dias... todos os dias...

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

No meu mundo perfeito...

... a esta hora teria os meus dois filhos agarrados a mim...

A mais nova, com a ajuda do mais velho, estaria a treinar o sopro da primeira velinha que será daqui a 15 dias...

Só que daqui a 15 dias haverá apenas um grande vazio... sem velas, sem risos, sem bolo e sem festa... só um vazio recheado de uma grande saudade do que se viveu mas sobretudo de uma saudade imensa do futuro que se negou a existir...

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Quase...

... a chegar o dia em que completas o teu primeiro aniversário... Meu Deus... porquê?

sexta-feira, janeiro 30, 2015

Hoje...

...É o dia da Saudade...


És uma das jóias que me coube lapidar
De um brilho ímpar, uma luz sem igual
Um incondicional amor
E mora comigo um misto de sentimentos
De amor, de dor e de saudade...
Serás para sempre a minha bebé... A minha Júlia
Amo-te!

terça-feira, janeiro 20, 2015

O Céu...

...Em festa hoje... no próximo dia 20 fará 1 ano que te perdi... doem-me os olhos de não conseguir chorar porque já não tenho lágrimas para verter.

A tristeza é tão grande que as lágrimas secam ainda antes de saírem como se este vazio, qual buraco negro, quisesse absorver tudo no meu coração. Hoje é um daqueles dias que até me tocarem na pele me doi e doi-me tudo, não é só a alma, a dor é tão grande que o corpo se alia à alma numa tentativa de a aligeirar. Leio Chico Xavier na esperança que as suas palavras sábias me  acalentem o coração... os meus pés sangram e tem dias que é dificil seguir em frente...

"Não percas a tua fé entre as sombras do mundo. Ainda que os teus pés estejam sangrando, segue para a frente, erguendo-a por luz celeste, acima de ti mesmo. Crê e trabalha. Esforça-te no bem e espera com paciência. Tudo passa e tudo se renova na terra, mas o que vem do céu permanecerá. De todos os infelizes os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmo, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo. Eleva pois o teu olhar e caminha. Luta e serve. Aprende e adianta-te. Brilha a alvorada além da noite. Hoje é possível que a tempestade te amarfanhe o coração e te atormente o ideal, aguilhoando-te com a aflição ou ameaçando-te com a morte. Não te esqueças, porém, de que amanhã será outro dia." Chico Xavier

quarta-feira, dezembro 17, 2014

10 Anos!

...Há precisamente 10 anos tinha a confirmação que vinhas a caminho meu Leãozinho aos caracóis que já não tem caracóis.
Foi o melhor presente de Natal que alguma vez poderia ter tido na vida!
Amo-te muito meu filho.
Obrigada por fazeres parte da minha vida...



segunda-feira, dezembro 08, 2014

Agora e...

 ...a caminho do 10º mês da tua partida tão repentina e tão dolorosa, dou por mim a pensar no Natal do ano passado, dos sonhos, da esperança e felicidade de um futuro contigo, de um futuro risonho a 4.

Este ano peço ao Pai Natal nunca reviver 2014.

Que 2014 faleça a 31 de Dezembro e que nunca mais volte que já vai tarde! Que venha outro 2013 por exemplo que eu não me importo, fomos tão felizes em 2013...

Que 2015 nos traga uma terceira viagem, um novo futuro risonho, e se possível novamente cor de rosa...


(1 Dezembro de 2013 no tempo em que a vida era perfeita e fazíamos projetos de um futuro contigo Jú)

domingo, dezembro 07, 2014

Meus filhos...

Há um ano atrás tirávamos esta foto os 3... 2013 foi sem dúvida o ano mais feliz da minha vida e eu não sabia. Como mulher insatisfeita por natureza e exigente ao ponto de querer sempre mais e mais tinha sonhos e esperanças de que 2014 superasse 2013.

E superou...

Pela negativa no que respeita à felicidade e antagonicamente pela positiva em termos de ensinamento do que realmente é importante, da capacidade do ser humano poder morrer em vida e de voltar a nascer mais forte e melhor, da descoberta da capacidade de amar com um Céu de distância. Pela positiva no sentido de perceber a dimensão do amor dos que nos rodeiam e das pessoas maravilhosas que conheci e que partilham um destino de vida similar.

2014 trouxe o pior da vida mas trouxe à superfície o melhor de mim. Trouxe a sabedoria do que realmente faz falta, do que realmente importa viver, da vida das coisas em detrimento das coisas da vida.

Amores da minha vida, carne da minha carne...

Gratidão infinita ao Universo por me ter escolhido para ser a vossa mãe, por poder cuidar de ti Alexandre e ajudar-te a crescer, pelo ensinamento que foi e é ser tua mãe Jú, ser mãe de um Anjo Rosa no Céu...

Este Amor não tem dimensão, não tem espaço... é amor puro, que não espera nada em troca. Amo pelo prazer de vos amar...

Este Amor estala-me a alma e fá-la crescer para albergar este sentimento tão profundo e tão visceral que me acompanha e cresce a cada instante que passa...
"Amo-vos" é de facto uma palavra que fica bem aquém daquilo que sinto...



sexta-feira, dezembro 05, 2014

Como é que se esquece...

Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa, como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não está lá?
As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?
Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tente esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!
É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso primeiro aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados, se tivessem apenas o peso que têm em si: isto é, se os livrássemos da carga que lhe damos, aceitando que não tem solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença do que se padeceu. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembrança, na esperança de ele se cansar.
Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos partilhar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.

As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar. É preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber. E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.
Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sítio onde se tenha sido feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.

Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem, só conseguem amar-se bem quando não se dão. Mas como esquecer? Como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.
Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio do remoinho de erros que nos revolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.


Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas das Caraíbas, livros de poesia- só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar fôlego. Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado natural. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somos feitos para aguentar com ela.

Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amamos, de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isso conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por Ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste inexterminável barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.

O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue, dar um pedacinho de carne.
E mesmo assim, mesmo magoado, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia de Nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.
Quanto mais fácil amar e lembrar alguém – uma mãe, um filho, um amigo, um grande amor – mais fácil deixar de amá-lo e esquecê-lo.
Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e paciência, aqueles que amamos com paciência, aqueles que amamos sinceramente, que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem.
E quando alguém está sempre presente?
Quando é tarde. Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar.
Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar?
Aí está o sofrimento maior de todos. O luto verdadeiro.

Aí está a maior das felicidades.

Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, novembro 17, 2014

Hoje...

... Hoje completam-se 38s+4d da tua partida...

A partir de hoje passas a estar há mais tempo no sítio onde os Anjos como tu moram do que aqui connosco...

Amo-te daqui até ao Céu e mais além filha

Abraços e beijos do tamanho das dimensões que nos separam, da tua e para sempre Mãe...

quinta-feira, novembro 13, 2014

38 semanas...

...passaram 38 semanas... daqui a 4 dias há tanto tempo no Céu como aqui...

É insuportável não conseguir deixar de ter a perceção dos dias, das semanas, da dor, da saudade... tudo mais parece tão pequenino, tão insignificante... os factos da vida são apenas e só tretas...

Já é insuportável ouvir a palavra" força"... até parece que se trata de levantar pesos. A palavra "ultrapassar" é abominável e normalmente dita porque quem vive na felicidade da profunda ignorância de achar que se supera a morte de alguém tão visceralmente ligado a nós como um filho.

"Ultrapassar" só ganha dimensão se o assunto for exceder os limites do que alguma vez se achou que se pudesse sentir, relativisar questões menores e vencer a inércia constante que teima em fazer-nos fechar os olhos e parar de respirar...

domingo, outubro 26, 2014

Conversas...

 Conversas entre mãe e filho:

- Filho se não te portas em condições ficas de castigo sem computador e sem tablet
- Oh... Não faz mal...
- Não faz mal?! Então? Queres arriscar?
- oh mãe, mas continuo a ter-te a ti!

Com 9 anos e tão sabidolas... E la fiquei eu com um sorriso no rosto, é demais este meu filho ♥