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quinta-feira, abril 06, 2006

O parto...

Estando a ser esta uma noite de insónia, vou aproveitar e relatar aquela que foi a experiência mais fantástica que tive na minha vida (pelo menos até à parte da cesariana ...).
Apesar de já ter acontecido há 7 meses e 2 semanas, recordo-me do parto como se de hoje se tratasse. O rolhão comecou a sair precisamente uma semana antes do parto, dia 12 de Agosto.
No dia 18 de Agosto fui fazer um CTG ao hospital de manhã e um toque agressivo (uma malandrice como a minha médica o intitulou, se fosse hoje não teria deixado fazer toque nenhum...) para que fosse induzido o parto no dia 22 de Agosto. Estava já com o colo 50% apagado e 3 dedos de dilatação. A Dr estranhou eu não ter dito nada nem sequer um ai abafado mas na realidade nem me doeu assim tanto. Imaginei-me na praia e consegui abstrair-me do que me estava a fazer. Disse-me que estava fresca que nem uma rosa e que ficava para segunda. Viemos para casa e eu comecei a sentir logo uma moinha no fundo da barriga mas achei que deveria ter sido do toque, não me preocupei. Passámos o dia calmamente, eu ainda a acabar de bordar uma fralda para o Alexandre que acabei nessa noite. Era para irmos caminhar como habitualmente mas como estava já com algumas dores optámos por ficar em casa, Alugámos um DVD, o Aviador. Por volta da meia noite do dia 19 de Agosto (e DPP do Alexandre) as contrações comecaram a ser ritmadas de meia em meia hora e eu pensei... vai ser mais cedo. Às duas da manhã ficaram mesmo dolorosas, o M. ajudou-me a relaxar, meti-me na banheira e disse-lhe que fosse descansar. Acho que nunca tomei banho com água tão quente, mas as dores que sentia era fortes e eram só nas costas... deitei-me às 4 da manhã, depois de vir do WC e no meio de uma contração agora mais apertadas, senti líquido a sair mas como era pouco, virei-me com um sorriso e disse ao meu marido, estou a ficar incontinente com estas dores... Voltei para o banho, desta vez duche, jactos de água quentíssimos junto à zona lombar (as minhas dores de parto foram só nas costas não tive uma única na barriga), só me apetecia estar no banho ou de gatas ou tipo como os muculmanos oram a Meca :). O M. descansava. Às 6h outra vez a mesma perda de líquido e aí eu pensei que talvezme tivesse rebentado as águas. Fui tomar o pequeno almoço, tentei sentar-me e não consegui, uma dor... chamei o M. e disse-lhe vai nascer hoje amor, temos que ir para a maternidade. tomei outro duche calmamente, tentei comer algo e lá fomos à maternidade. A turbulência provocada pelo piso irregular aumentava a frequência das contrações e as dores. Quando vinha uma o M. quase que parava o carro. Chegámos ao hospital, dei entrada nas urgências às 8h48min da manhã fui atendida por uma enfermeira fantástica que me fez o toque 5 cm disse ela, saco roto mas apresentação alta. Mandaram-me vestir uma bata e ligaram-me ao CTG. Quase não recebi oxitocina, não quis epidural, mas também ninguém me perguntou se queria... A dilatação foi-se fazendo rapidamente e com bastantes dores mas aguentei perfeitamente. A fase de transição é que custou um bocadinho porque tinha acessos de muito calor e depois de muito frio, muitos enjoos e umas dores nas costas... eu pedia à enfermeira para ter dores na barriga :) A enfermeira B. foi fenomenal queria fazer-me massagens nas costas tal como M. mas eu não suportava que ninguém me tocasse, parecia que a intensidade das dores dobrava. A médica de serviço (que infelizmente era tb a medica que estava de serviço qdo fiz a curetagem) vinha e ia, sem nunca me dirigir a palavra. De repente senti necessidade de fazer força, as contrações eram seguidas, pedi ao M. que fosse chamar alguém, nem me ocorreu que tinha uma campainha ao lado, a enfermeira e a medica vieram logo mas ainda não podia. Passado pouco tempo, novo toque, dilatação completa é hora de fazer força Cristina disse-me a enfermeira. E eu fiz muita força, muita mesmo, cheguei a evacuar mas o Alexandre não descia. A médica fazia força na minha barriga e ele continuava sem descer. Após quase 1 hora a fazer força a médica com a cabeça fez um não à enfermeira e foi-se embora. A enfermeira B. disse-me então: custa-me tanto vê-la ir para cesariana depois de um trabalho de parto destes, vamos tentar as duas mais uma vez? disse-lhe que sim com a cabeça mas pareceu que o mundo tinha desabado. Tentei com todas as minhas forças mas ele não nasceu. Depois foi tudo muito rápido, o M. empurrou juntamente com a enfermeira a cama para o bloco, encontrei a médica que me seguiu durante a gravidez e com ar de admiração disse a sorrir: então era só para Segunda feira Cristina! eu respondi no fim de uma contração: hoje já não estou fresca como uma rosa pois não Dr.? ainda deram umas gargalhadas :) entrámos na sala de operações, uma enfermeira fica com M., eu sempre a fazer força, era incontrolável, o pessoal de saude a despir-me, a pedir-me para não fazer força, faço a respiração ofegante, o anestesista pede-me para não respirar assim, eu digo, não consigo deixar de fazer força, tudo a correr à minha volta, um pano verde que sobe, eu olho a minha medica e digo-lhe que estou cheia de medo, uma coisa que desce... acordo não me lembro de nada, nem sequer o que se tinha passado, não consigo respirar, vejo sombras, tento avisá-los que não respiro, uma diz-me respire normalmente engenheira... eu penso... meu Deus tive um acidente numa obra, estava tão desorientada que nem me lembrava do que estava ali a fazer (além de que não estava à espera de ser tratada pelo grau académico quando tinham passado a manhã toda a tratar-me pelo nome), a realidade volta quando outra pessoa diz: a esta senhora só benuron porque ela quer amamentar. Não tenho forças para perguntar pelo Alexandre, não consigo falar, oiço as pessoas dizerem: esta senhora queria tanto um parto normal.... cheguei ao quarto, fiquei junto à janela com vista para o mar (cama 21), entra de repente o transportador para levar o sangue do cordão à crioestaminal, as enfermeiras ralham porque não podia entrar ninguém no quarto. Dizem-me tem um bebé tão lindo! nasceu às 2.10h e pesa 3160gr e eu pergunto ele está bem? dizem-me que sim que é um lindo rapaz.
Passado mais de 1 hora dele ter nascido o M. entra no quarto com o nosso filho, choro, choro muito de felicidade, de o ver, de os ver aos dois, de ver que ele está bem, de ver os olhos chorosos de felicidade do meu marido que amo muito. Apelidaram-me de "srª que queria tanto um parto normal", levei 24 agrafos. Por volta das 5.40h da tarde dei-lhe de mamar pela primeira vez, o pai deu-lhe um biberão logo após o nascimento. Foi maravilhoso tê-lo a mamar junto a mim, é uma sensação única, é um elo que se cria, é uma passagem de amor e carinho.
O dia a seguir ao parto, quando nos levantam é horrível, nunca tive tantas dores, muito piores que as dores de parto, não conseguia respirar de tanta dor. No 2º dia a seguir ao parto comecei a caminhar no corredor da maternidade e comecei a sentir-me melhor.
Quando fui tirar os pontos perguntei à minha médica o que tinha acontecido. Ela disse-me que o meu filho nunca nasceria sem ajuda... Para me tentar convencer disse-me que a certa altura do parto o Alexandre teria virado a cabeça e encaixado de lado (e ainda me disse que eu tinha muito espaço...), e que com a força que eu fazia mais ele encaixava. No entanto, sinto que não foi bem assim... segundo apurei há pouco tempo junto com a obstetra que estava de serviço no meu parto ela impõe um tempo limite para a fase expulsiva do parto de 40min, excedendo esse tempo ela parte para cesariana... e quem precisa de mais tempo??? Somos todas diferentes, todos os partos são diferentes...
Agradeço aos técnicos de saúde que nos acompanharam durante a nossa estadia no hospital, todos muito atenciosos, muito carinhosos.
Apesar de tudo, adorei a experiência, quando iniciei o trabalho de parto senti-me a mulher mais linda, mais poderosa e mais feliz do mundo, é uma sensação indescritível.
Disto tudo fica a felicidade de ter um filho mas fica a dor de uma experiência perdida que eu tanto queria viver...
Sinto muita tristeza por não ter sentido o meu filho nascer, por tê-lo conhecido quase 2 horas após o seu nascimento, por não me terem dado oportunidade de tomar decisões no meu parto, por me ter deixado ir para cesariana sem questionar, pela anestesia geral não consentida, por não conseguir aceitar facilmente que às vezes as coisas não correm como queremos... tenho pânico que possa suceder novamente...
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